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Nomear o desconforto num processo de adaptação

  • Foto do escritor: Laísa A. Moretto
    Laísa A. Moretto
  • 25 de mar.
  • 3 min de leitura

Uma reflexão acompanhada de estratégias para lidar com aquele desconforto que sentimos com certa frequência.


Atendimento Psicológico. .

#ParaTodosVerem A imagem descreve uma parede pintada de tenta branca, com manchas irregulares, em formato e tonalidade, nas cores cinza e verde.
#ParaTodosVerem A imagem descreve uma parede pintada de tenta branca, com manchas irregulares, em formato e tonalidade, nas cores cinza e verde.

O processo terapêutico, independentemente da abordagem, é sobre dar nome às coisas – aos sentimentos, às memórias, ao que nos atravessa. Quando nomeamos, conseguimos dar contornos, localizar ferramentas e compreender melhor o que estamos sentindo. É como identificar mofo em uma parede: só ao enxergar podemos decidir como lidar com ele.


Sabe aquele mofo da parede?

No início, o mofo até pode passar despercebido. Umidade acumulada, pouca ventilação, condições que favorecem seu crescimento sem que notemos de imediato. Aos poucos, ele se espalha, se entranha nos cantos, e se não olharmos de perto, só vamos perceber quando o cheiro já estiver forte demais para ignorar. Com nossas emoções acontece algo parecido. Pequenos desconfortos se acumulam – uma insatisfação, uma sensação de deslocamento, uma tristeza que não faz sentido – até o momento em que tomam conta e não conseguimos mais disfarçar.


Muitas vezes nosso desconforto é esse mofo

E ao reconhecer o que nos incomoda, surgem emoções como raiva e vergonha. Nomear nos coloca em contato com nossa vulnerabilidade, e isso pode ser desconfortável. Por isso, tentamos camuflar o que sentimos. Podemos até colocar um quadro bonito por cima da parede mofada, mas isso não resolve o problema – ele continua lá, crescendo por trás.

Para quem está vivendo fora do seu país, há ainda um peso extra. Como posso estar triste, frustrada ou desmotivada se essa mudança foi tão desejada? Parece não caber sofrimento nesse espaço, e então seguimos tentando evitar o incômodo. Mas ignorar não faz com que ele desapareça. Pelo contrário: quanto mais negligenciamos, mais ele cresce.


Nosso corpo encontra formas de sinalizar quando algo não está bem. Sentir-se insegura, desamparada ou sem pertencimento faz parte da experiência de adaptação. E não é sobre eliminar esses sentimentos, mas reconhecê-los, compreendê-los e então decidir como agir de forma alinhada com nossos valores.

Elaborar uma situação...

Não significa necessariamente romper ou deixar de sentir algo. Significa olhar com sinceridade, sem fuga, e escolher conscientemente os próximos passos. Se não reconhecemos o desconforto, seguimos sem pedir ajuda, sem construir uma rede de suporte, sem nos permitir cuidar daquilo que nos faz bem.

E então, nos perguntamos: por que escolhemos o caminho mais difícil? Trabalhar além do limite, beber para relaxar, ir em uma balada seguida da outra, comer demais, fumar demais (e complete com outras tantas coisas). Muitas vezes, evitamos o contato com nossas emoções porque é difícil encarar a vulnerabilidade. A grande transformação acontece quando decidimos dar nome ao que sentimos, entender o que nos paralisa e criar alternativas para agir.


E sim, adaptação exige esforço!

Traz tarefas novas para nossa rotina. Afinal, para resolver um problema, não basta só enxergar o mofo – é preciso identificar de onde vem a umidade, o que está favorecendo seu crescimento e, só então, agir. Do contrário, ele volta. Assim como as emoções que insistimos em ignorar.

A vida fora do Brasil pode ser incrível e, ao mesmo tempo, desafiadora. Nossa história não é um gráfico ascendente contínuo – há momentos de crescimento, de pausa, de reconstrução. Precisamos nos perguntar: estamos vivendo para performar uma vida idealizada ou para construir experiências genuínas?


E como fazer?

É natural sentir medo ao entrar em contato com emoções difíceis. Mas, quando nos permitimos reconhecê-las, podemos criar pequenas mudanças para dar mais sentido aos nossos dias.

Vou deixar alguns exemplo:

  • Escolher se aproximar de alguém para construir um vínculo além da superficialidade.

  • Observar com mais consciência a relação com o álcool e fazer escolhas mais alinhadas.

  • Pedir ajuda com uma tarefa cotidiana ou aceitar um apoio.

E tudo isso exige tolerar o desconforto inicial de se colocar vulnerável, que é um treino e tanto!


A grande tarefa de tolerância ao desconforto

É um importante cuidar às nossas emoções – nomeando, entendendo e transformando – é um caminho que vale a pena ser percorrido. Porque, assim como lidar com o mofo, encarar nossas emoções de frente é o único jeito de construir um ambiente mais saudável para viver.



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